ESTUDO DE VIABILIDADE E PROJECTO
DE INSTALAÇÃO DE DOIS TELECENTROS-PILOTO NA PROVÍNCIA
DE MAPUTO - MANHIÇA E NAMAACHA
Maputo,
Abril 1998 Relatório final
V.
O TRABALHO DE CAMPO EM MANHIÇA E NAMAACHA (cont.)
5.2.
CARACTERÍSTICAS DEMOGRÁFICAS E CONDIÇÕES DE VIDA (ENTREVISTADOS E SUAS FAMÍLIAS)
a)
Características demográficas
As
entrevistas cobriram 203 das 207 pessoas que haviamos planeado entrevistar.
As características da população representada pela amostra são:
(i)
Composição por sexo dos entrevistados:
-
homens: 78%;
-
mulheres: 22%.
(ii)
Composição por sexo dos agregados:
- homens:
50.2%;
- mulheres:
49.8%.
Quadro
5
Composição
dos agregados por sexo
|
Pessoas
do sexo:
|
Namaacha
|
Manhiça
|
Total
|
| Masculino
|
150
|
49.8
|
252 |
50.4
|
402
|
50.2 |
| Feminino
|
151 |
50.2
|
248
|
49.6
|
399 |
49.8
|
| Total
|
301 |
100%
|
500
|
100%
|
801 |
100%
|
Os
resultados apresentados no quadro 5 sugerem uma distribuição equilibrada
dos sexos, e diferenças negligenciáveis entre os dois distritos na estrutura
por sexo da população representada pela amostra. Nas estatísticas nacionais,
diferentemente do resultado que relatamos, verifica-se um ligeiro desequilíbrio
a favor das mulheres. Esta diferença pode ser explicada:
- pela
concentração de professores e técnicos (saúde, educação e agricultura)
na amostra, muitos dos quais são jovens solteiros, colocados nos distritos
na fase inicial das suas carreiras profissionais. Os homens predominam
nas ocupações especializadas, na gestão de negócios, e no acesso à educação;
- problemas
resultantes de se trabalhar com uma amostra relativamente pequena da
população.
(iii)
Composição por idade: A distribuição da população representada pela
amostra (total das duas vilas) por grupos etários é ilustrada pela figura1:
Figura
1
Grupos
etários
A
figura sugere que há uma grande concentração de pessoas na faixa 16-25 anos
(30%), grupo que pensamos terá grande interesse nos serviços a serem prestados
pelo telecentro, alguns com poder de compra suficiente para traduzir este
interesse em procura.
(iv)
Actividades económicas:
Considerando em idade laboral todas as pessoas com idades iguais ou superiores
a 16 anos, a força de trabalho estima-se em cerca de 65% da população abrangida
pelo inquérito. Como se pode ver no questionário, o inquérito tenta diferenciar
as pessoas que trabalham ‘fora de casa’, incluindo-se aqui pessoas empregadas
de outros e trabalhadores por conta própria, daquelas que apenas trabalham
em casa, seja a produzir serviços para o consumo da família (limpezas, tomar
conta das crianças) como produzindo pequenos volumes de produtos como hortícolas,
animais de pequena espécie, costura, etc. As respostas obtidas mostram que
72% dos homens trabalham fora de casa, contra 43% das mulheres.
A distribuição da população por actividade económica indica que a grande
maioria das pessoas está ligada à produção agrícola familiar.
Quadro
6
Distribuição
da população potencialmente activa por funções
| |
Homens |
Mulheres |
Total |
| Agricultura Familiar |
53% |
56% |
54% |
| Domestico(a) |
2% |
22% |
12% |
| Professores, enfermeiros, tecnicos de saude, agricultura,
etc |
15% |
8% |
12% |
| Funcionários públicos, bancarios, etc |
8% |
3% |
5% |
| Electricistas, mecanicos, mineiros |
10% |
0% |
7% |
| Pastores religiosos |
4% |
0% |
2% |
| Outros |
8% |
11% |
8% |
Um
grande número de estudantes nos distritos em análise são filhos de camponeses.
Mesmo nos casos em que um dos progenitores está empregado na função pública
ou outra actividade, o outro tende a contribuir para a renda da família
trabalhando a terra, estendendo-se esta experiência para cônjuges de profissionais
da educação, saúde, etc.
O
estado é o maior empregador, ocupando 12% da população activa na educação,
saúde e agricultura. O estado contribui ainda para o emprego de funcionários
(cujo grupo de actividade absorve 9% da população activa).
Como
era esperado, as mulheres concentram-se nas actividades para as quais são
exigidas poucas qualificações académicas e profissionais, e que garantam
flexibilidade na alocação do tempo. Entre as actividades remuneradas por
outrém listadas, a educação e saúde surgem como principais empregadoras
de mulheres.
Uma
última característica da ocupação laboral é que a maioria dos agregados
reportam que os membros trabalham na vila onde moram, como o gráfico abaixo
ilustra. A descrição dos resultados referentes às actividades desenvolvidas
pelas pessoas entrevistadas e/ou membros dos seus agregados familiares não
distingue as duas vilas porque na sua maioria, as características são semelhantes.
Entre as diferenças destaca-se o facto de haver mais mineiros empregados
na África do Sul com familiares em Manhiça do que em Namaacha.
Figura
2
Local
do posto de trabalho
(do
total de homens/mulheres que trabalham, % por local do posto de trabalho)

As
mulheres tendem a ocupar-se na vila, ou em Maputo, enquanto os homens tendem
a procurar emprego também nos países vizinhos.
(v) Educação:
As
mulheres têm menores habilitações literárias do que os homens, e à medida
que se alcançam níveis mais elevados, a presença de mulheres declina, como
a figura 3 indica. Por exemplo, enquanto mais de metade das pessoas que
nunca completaram qualquer nível educacional são mulheres, estas constituem
menos de 10% das pessoas com formação superior.
Figura
3
Proporção
de homens e mulheres que completou cada nível educacional escolhido
(total
da população com o nível completo =100%)

Contudo,
como a figura 4 abaixo indica, é de salientar que 45% da população tem habilitaçoes
literárias acima da 8a classe, aspecto encorajador para o projecto.
Figura
4
Nível
de escolarização da população
(%
da população que completou cada nível de escolarização)

Mesmo
com uma amostra que privilegia profissionais de educação, saúde e agricultura,
menos de 5% da população representada tem formação superior. A moda situa-se
no intervalo da 8a-10a classe, com cerca de 1/3 da população.
b)
Rendimentos e despesas
Os
inquiridos forneceram informações sobre os intervalos onde as suas receitas
e despesas se situam. Os resultados referentes à distribuição das receitas
por categoria, apresentados na figura 5, indicam que 72% dos alunos não
sabem qual é o nível de rendimento e de despesas dos seus pais ou tutores.
Por outro lado, há dificuldades na medição e/ou imputação de valores referentes
às receitas de auto-produção (produtos agro-pecuários em particular).
Cerca
de 60% dos técnicos reportam rendimentos acima de 1200 contos mensais, contra
cerca de 50% dos professores. Enquanto o intervalo salarial onde se encontra
a moda para os técnicos é 1200-3000 (42% dos técnicos), a moda para os professores
encontra-se no intervalo 800-1200. Na categoria outros, 57% dos respondentes
afirma ter rendimentos acima dos 3000 contos mensais.
Figura 5
Rendimentos
por categoria
(%
da população de cada categoria com rendimentos em cada intervalo. Total
dos inquiridos na categoria=100%)

Relativamente
à distribuição dos rendimentos nos dois distritos, como a figura 6 indica,
há a salientar que tanto em Namaacha como em Manhiça, a moda situa-se no
intervalo 501-800 contos (42-68 US$). Figura 6
Rendimentos
por distrito

Relativamente
às despesas, é de salientar que, assim como os rendimentos, há uma proporção
considerável da população (cerca de 20% no total) com dificuldades em medir
e avaliar o consumo de bens alimentares da machamba familiar e serviços
de auto-produção. Inquiridas sobre as suas prioridades na alocação das despesas,
71% das 191 pessoas que responderam reportam a alimentação como primeira
prioridade, como se pode ver no quadro 7.
Quadro
7
Prioridades
na alocação de despesas
|
.
|
Prioridade
1
|
Prioridade
2
|
Prioridade
3
|
Total
1
|
| Alimentacao
|
136
|
1
|
0
|
137
|
| Casa
|
25
|
111
|
5
|
141
|
| Roupa
|
8
|
27
|
39
|
74
|
| Educacao
|
8
|
34
|
70
|
112
|
| Saude
|
6
|
2
|
14
|
22
|
| Transporte
|
6
|
1
|
55
|
62
|
| Bebidas
e tabaco |
0
|
5
|
1
|
6
|
| Empregados
|
0
|
5
|
1
|
6
|
| Telefone
|
0
|
5
|
4
|
9
|
| Outros
|
2
|
0
|
2
|
4
|
| Total
2 |
191
|
191
|
191
|
573
|
Despesas
relacionadas com a casa são consideradas por 13% dos inquiridos como primeira
prioridade, sendo a segunda prioridade para cerca de 60% dos respondentes.
Cerca de 20% dos inquiridos definem educação como sua segunda prioridade,
subindo para 37% nas terceiras prioridades. A modesta prioridade dada às
despesas com telefones, correios e outras comunicações, é consistente com
a informação sobre os montantes alocados à essas despesas, tal como acontece
com as restantes rubricas. Curiosamente, despesas de transporte aparecem
como terceira prioridade para cerca de 1/3 dos inquiridos, em locais onde
as pessoas em geral não necessitam de transporte público para se deslocar
para o trabalho, mercado, etc. A explicação encontrada é que muitos professores,
alunos e outros entrevistados têm familiares em Maputo, Moamba, Xai-Xai
e outros locais, cujo contacto envolve o uso de meios colectivos de tranporte
como o "chapa".
Comparando rendimentos e despesas verifica-se que tanto em Namaacha (figura
7) como em Manhiça (figura 8), a maior parte dos inquiridos declaram maiores
níveis de despesa do que de rendimento, com rendimentos totais equivalentes
a 91% das despesas.
Figura
7
Rendas
e despesas, Namaacha

Em
Namaacha, apenas os grupos com rendas acima de 1200 contos reportam despesas
abaixo desses valores. Curiosamente, em Manhiça (figura 8) apenas os agregados
com rendas acima de 3000 contos apresentam poupanças.
Figura
8
Rendas
e despesas, Manhiça

Os
dados que colhemos apenas permitem obter uma ideia aproximada do nível de
rendimentos e despesas das comunidades onde se pensa instalar os telecentros.
Com as limitações decorrentes da escolha feita em termos do tipo de informação
a colher (escolha feita com base na comparação das vantagens e desvantagens
das diferentes opções que se nos colocavam), pensamos poder fazer algumas
inferências sobre o potencial poder e vontade de compra dos serviços a oferecer
:
-
há indicações de que os professores, técnicos médios e superiores nos
sectores de agricultura e saúde, bem como outros cujos rendimentos médios
mensais se situam entre os 500 e 800 contos, tendem a ter despesas acima
dos rendimentos que declaram. Muitos inquéritos em África têm encontrado
o mesmo problema, sendo frequentes os casos em que os inquiridos não
reportam todos os rendimentos que possuem. Assim sendo pensamos ser
arriscado assumir que os rendimentos auferidos não permitirão espaço
para novas despesas. Contudo, deve-se considerar que para alguns grupos,
particularmente estudantes, o uso dos serviços será constrangido pelo
poder financeiro das suas famílias, o que implica analisar formas de
patrocinar o acesso a este e outros grupos a identificar;
- há
indicações de que após as despesas com alimentação e alojamento, os
inquiridos dão grande prioridade às despesas com educação, acima de
rubricas como roupa, saúde ou transporte. Dando um enfoque educacional
aos serviços a prestar, poder-se-á eventualmente garantir interesse
no uso dos serviços. Contudo, como se refere acima, mesmo que priorizem
a educação dos seus filhos, as famílias humildes provavelmente não terão
meios de financiar despesas adicionais às que já suportam.
O inquérito inclui perguntas feitas especialmente para fornecer dados sobre
as intenções de compra dos serviços do telecentro, cuja avaliação se faz
a seguir.