ESTUDO DE VIABILIDADE E PROJECTO
DE INSTALAÇÃO DE DOIS TELECENTROS-PILOTO NA PROVÍNCIA
DE MAPUTO - MANHIÇA E NAMAACHA
Maputo,
Abril 1998 Relatório final
II.
DESENVOLVIMENTO DE UMA METODOLOGIA
2.1.
Considerações metodológicas
A
implantação de telecentros tem como filosofia central contribuir para o
desenvolvimento local. Deste ponto de vista, foi necessário ter em conta
o tipo de impacto que os telecentros poderão ter a nível local - incremental
ou exponencial - e como alcançar o continuum entre a orígem exterior do
projecto e a necessária apropriação pelos beneficiários. Do mesmo modo,
consideração significativa foi dada à problemática que envolve a implementação
de projectos de desenvolvimento local, nomeadamente, como levar à sua aceitação
pela comunidade, como definir os seus beneficiários reais, como garantir
a sua sustentabilidade e como determinar a sua replicabilidade. A origem
exterior do projecto é uma consequência inevitável da sua natureza inovadora.
De facto, o telecentro constitui uma intervenção estratégica no processo
de desenvolvimento local, visando materializar uma necessidade para o futuro
que já é sentida a nível central. Mas, não constituindo uma necessidade
imediata sentida a nível de base, o telecentro deve ser diferenciado de
outros projectos de desenvolvimento local. Neste quadro, a identificação
do grupo-alvo e das suas necessidades de comunicação transpareceu como objectivo
crucial do presente estudo de viabilidade. De acordo com os objectivos delineados
nos Termos de Referência do projecto, e descritos acima, as metodologias
a desenhar e testar devem servir para a selecção e instalação de telecentros
tanto na fase piloto como nas posteriores, e devem, igualmente, ser replicáveis
noutras partes do mundo. No entanto, o instinto e a experiência prática
levaram a equipe de trabalho a questionar fortemente a viabilidade de tal
abordagem, dadas as grandes diferenças socio-económicas, culturais e de
desenvolvimento entre as várias comunidades e zonas onde os telecentros
poderão vir a ser instalados. Embora a experiência de Moçambique, em particular
o processo de selecção e instalação dos dois telecentros-piloto, se possa
tomar como ponto de partida, as metodologias que este projecto desenhou,
utilizou e propõe, podem ser tomadas apenas como linhas gerais de orientação
que permitam a necessária flexibilidade para poder adaptar o trabalho a
cada nova realidade. Por outro lado, dada a novidade deste processo, a equipe
de trabalho teve que adoptar métodos experimentais a cada passo do projecto.
Cada etapa foi discutida preliminarmente para definir hipóteses de trabalho,
que posteriormente foram testadas e verificadas através de pesquisa e observação,
para depois se analisarem os resultados e tomarem-se as decisões finais.
Neste contexto, deve-se salientar a metodologia participativa que foi implementada
a todos os níveis. A decisão de constituir uma equipe de trabalho que não
fosse únicamente "técnica", por um lado, ou demasiado académica, por outro,
nasceu do reconhecimento da complexidade do processo de desenvolvimento
local e das exigências deste projecto em particular, e tornou-se num factor
importante no aprofundamento dos assuntos a nossa frente. Todo este debate
metodológico foi condicionado pelas experiências de telecentros noutros
países em desenvolvimento, que demonstraram não serem paradigmáticas: não
há, ainda, resultados consolidados. Por outro lado, essas experiências são
de relevância relativa e limitada para Moçambique, pois correspondem aos
contextos muito específicos dos locais onde foram implementados. Seja como
fôr, foi importante ter acesso aos documentos de diversos projectos neste
domínio, nomeadamente do Uganda, Tanzania e Peru. A participação de um membro
da equipe num "workshop" na África do Sul, sobre esta matéria, também trouxe
ideias e percepções extremamente válidas. Uma pesquisa na Internet veio
acrescentar as nossas informações, e ajudou o nosso enquadramento no debate
internacional acerca de telecentros e desenvolvimento.
2.2.
Etapas do trabalho
À
luz desta discussão, a equipe decidiu trabalhar por fases, sempre orientadas
no sentido investigação-acção. Este método foi ao encontro de vários objectivos:
-
permitiu conciliar os resultados das pesquisas documentais com os das
pesquisas no terreno;
- facilitou
a coordenação com outras entidades envolvidas em acções de desenvolvimento
e em projectos relevantes para a realização do nosso projecto;
- procurou
explicitamente evitar a criação de falsas expectativas no seio das comunidades
onde a equipe trabalhou;
- permitiu
uma acção simultânea de educação e esclarecimento sobre os objectivos
do telecentro, e uma recolha de opiniões e contribuições da maior gama
de eventuais intervenientes e beneficiários;
-
permitiu um conhecimento mais real e aprofundado dos locais, ao mesmo
tempo que permitiu um maior envolvimento local nos trabalhos do projecto.
Neste sentido, o trabalho conheceu as seguintes etapas principais, algumas
das quais realizadas em paralelo:
(i) Definição preliminar dos objectivos de um telecentro em Moçambique;
(ii)
Definição do tipo de local apropriado para a instalação dos 2 centros-piloto,
e elaboração de uma lista de possíveis locais;
(iii)
Pesquisa documental, recolha de informação através de contactos em Maputo
e visitas aos locais para juntar a informação necessária para uma tomada
de decisão;
(iv)
Desenho preliminar do telecentro;
(v)
Selecção de 2 locais para os telecentros-piloto;
(vi)
Investigação de campo aprofundada nos locais escolhidos;
(vii)
Análise dos resultados e reverificação do projecto;
(viii)
Trabalho prático: procura de instalações e recolha de dados para a elaboração
de orçamentos e estruturas de preços; Elaboração do relatório, incluindo
o projecto;
(ix)
Discussão e enriquecimento do relatório e projecto em "workshops" em Maputo
e nos 2 locais;
(x)
Conclusão do relatório definitivo.
2.3.
Métodos de recolha de informação
A
recolha de dados obedeceu aos seguintes métodos:
a.
Pesquisa documental - sobre os possíveis locais dos telecentros-piloto,
políticas nacionais, planos de desenvolvimento abrangendo os locais sob
consideração, actividades de entidades governamentais e organizações da
sociedade civil nos respectivos locais, etc.
b.
Entrevistas com informadores a nível central - contactos individuais com
representantes de entidades e indivíduos com experiência de trabalho ou
actividades correntes nos locais;
c.
Trabalho de campo:
i
Fase preliminar:
- Um
questionário, que teve como objectivo verificar os dados estatísticos
e outras informações recolhidos a nível central;
- Entrevistas
semi-estruturadas com informadores da administração local e outras entidades;
-
Discussão em grupo de foco com representantes de organizações e associações
e indivíduos influentes da sociedade civil.
ii
Segunda fase:
Um
inquérito com o objectivo de conhecer e caracterizar o leque de utentes
potenciais, o seu perfil sócio-económico, as suas necessidades e desejos,
e a vontade e capacidade de pagar os serviços:
- o
inquérito foi aplicado a uma amostra seleccionada, em parte, no seio
dos segmentos da comunidade escolhidos à priori como sendo os grupos
com maior interesse no telecentro, e no seio do público utente das cabines
telefónicas;
- os
dados foram processados por meios informáticos. Ao longo do trabalho,
a equipe prestou atenção à necessidade de considerar aspectos de género
no seu trabalho. Fez-se um esforço explícito para envolver homens e
mulheres em cada fase, e dar consideração às suas necessidades de género
no âmbito do telecentro.
III.
O TELECENTRO EM MOÇAMBIQUE
3.1.
O contexto africano
A
visão da AISI é criar em África, até ao ano 2010, uma sociedade de informação
sustentável, onde cada cidadão e cada escola, escritório ou empresa possa
ter acesso à informação e conhecimentos através de computadores e telecomunicações.
Ao mesmo tempo, deverão ser disponibilizados recursos informativos produzidos
dentro do continente e reflectindo as necessidades dos utentes desde o governo
até a base. A estratégia para a concretização desta visão passa pela elaboração
de planos nacionais, a criação de um ambiente favorável, a aplicação de
novas tecnologias e a formação da nova geração. Uma acção imediata seria
de facilitar o estabelecimento, a baixo custo, dos serviços de Internet
a nível local, garantindo a provisão de conteúdos africanos. Neste contexto,
devem-se procurar estratégias que ampliem o acesso a estes serviços, com
prioridade para as zonas rurais, comunidades de base e grupos marginalizados
na sociedade, nomeadamente mulheres e jovens.
3.2.
O conceito de telecentro
Existem
vários modelos de telecentro, que vão desde uma simples cabine pública comercial,
disponível para utentes e assinantes que não tenham equipamento informático
em casa, ou um "cybercafé" com ambiente mais informal e educativo, até um
centro comunitário com diversos fins, ao qual é acoplada uma componente
informática. Na recolha de informação sobre projectos existentes em países
em desenvolvimento, a equipe constatou que, quase todos eles, ou estão ainda
na fase de discussão, ou estão na primeira fase de pilotagem e/ou de arranque.
Isto implica a inexistência de material sobre resultados concretos das iniciativas
e avaliações de sucessos e fracassos, sobretudo a nível do continente africano.
O debate não tem evoluido para além do seu estado actual, bastante teórico.
Face
a isto, a equipe optou por integrar os conhecimentos existentes noutros
países e os conceitos prevalecentes em Moçambique, sobre o desenvolvimento
local, e os nossos conhecimentos sobre a situação real do país.
A
questão que dominou as nossas discussões foi a seguinte: nas condições actuais
de Moçambique, como garantir que o projecto cumpra o seu papel no âmbito
das estratégias da AISI, ou seja, contribuir para a ampliação, ao nível
da comunidade, do acesso às novas TCIs e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade
do telecentro através da sua viabilização económica?
Isto
é, num país pobre, onde a população tem um poder de compra reduzido, o sector
estatal trabalha com orçamentos constrangidos e inadequados, e o sector
privado é ainda embrionário e a reconstituir-se, depois dos prejuízos da
guerra, como fazer uma intervenção que venha a ter um impacto positivo no
desenvolvimento sócio-económico a curto e médio prazos, e que não se esqueça
dos grupos populacionais mais necessitados? E, ainda, como fornecer serviços
a preços accessíveis para estas camadas-alvo, sem condenar o projecto ao
fracasso quando os financiamentos iniciais se esgotam? Tudo isto tomando
em consideração que, embora os custos de investimento em TCIs estejam a
baixar de ano para ano, continuam altos em termos relativos; neste campo,
os avanços tecnológicos são tão rápidos que a hipótese de começar com equipamento
mais básico ou mais velho não se coloca como viável, e o tempo de vida de
qualquer investimento será relativamente curto.
Chegou-se
a colocar a dúvida sobre o telecentro ser, ou não, um projecto ainda prematuro,
visto o nível de desenvolvimento actual. Mas esta preocupação já vem respondida
numa série de debates e decisões a nível do continente e não só. Hoje está
claro que não há alternativa: ou damos os primeiros passos na auto-estrada
da informação, juntamente com o resto do mundo, ou o resto do mundo avança,
ficando nós, definitivamente, apagados do circuito. O segredo reside na
procura de formas de iniciar esta caminhada, formas que resolvam diversos
problemas de desenvolvimento nacional, criando "estradas" que ligam cidades,
vilas, aldeias e cidadãos entre si e com o mundo, evitando um foco exclusivo
na "estrada" cidade-mundo. Por outro lado, considerando que o país está
a reconstruir-se a partir do zero, depois da guerra, é este o momento propício
para introduzir as tecnologias mais modernas, saltando por cima da fase
tecnológica anterior que, praticamente, não chegou a ser introduzida. Quando
se fala da "re-skilling" de sociedade, no contexto de Moçambique está-se
a falar da capacitação, sobretudo, da nova geração com conhecimentos novos
e tecnologias sustentáveis que permitam concorrer no mundo de hoje em pé
de igualdade. A introduçao de TCIs não muda os termos do debate permanente
sobre as sociedades tradicional/moderna, mas actualiza os instrumentos de
modernização que são disponibilizados. A aposta é sempre a mesma: como fazer
com que a sociedade, no seu conjunto, se aproprie dos instrumentos e tire
deles os benefícios reais? Uma variante de telecentro, aparentemente mais
viável, seria a de localizá-lo em áreas urbanas mais desenvolvidas, com
um perfil essencialmente comercial. Pode-se argumentar a favor deste modelo,
no sentido de estar a contribuir para o desenvolvimento do sector empresarial
e, através do crescimento deste, contribuir para um desenvolvimento que,
em última análise, beneficia a população em geral.
O
modelo é legítimo; no entanto, no entender da equipe, não tem cabimento
dentro deste projecto por três razões principais:
- trata-se
de um modelo que seria mais correctamente materializado no contexto
de iniciativas empresariais normais;
- pela
necessidade da sua viabilidade imediata, este modelo seria, provavelmente,
estabelecido nas cidades, em primeiro lugar;
-
"conhecimento é poder";
- e
o modelo comercial e urbano não enfrentará a problemática principal,
de encontrar formas de dar acesso a este poder aos que real e actualmente
não o têm.
Assim,
a equipe optou por aceitar o desafio colocado pela AISI, e constante nas
políticas do governo e na filosofia do Projecto Acácia do IDRC:
- criar
um modelo de telecentro que vá ao encontro das necessidades do desenvolvimento
local, estimulando a actividade económica e o desenvolvimento social;
-
trabalhar fora das grandes cidades, contribuindo para reduzir os desequilíbrios
urbano-rurais e para a melhoria de vida dos grupos populacionais mais
marginalizados;
- comprovar
a relevância das TCIs para o desenvolvimento e desenhar um modelo economicamente
sustentável.
Embora
a instalação de cada telecentro deva ser estudada individualmente, em função
das condições e necessidades locais, o objectivo de um projecto piloto é,
por inerência, testar a viabilidade de uma hipótese, aproveitar as lições
aprendidas numa situação real, e poder aplicá-las numa escala maior. Portanto,
independentemente da existência de condições e facilidades atípicas num
piloto, o quadro geral do projecto tem que ser concebido com uma dimensão
e custos que permitam a sua replicação. Posto isto, passámos a definir os
contornos do telecentro.
3.3.
Linhas gerais de um telecentro em Moçambique
À
luz da discussão acima, foi possível chegar a algumas conclusões preliminares
sobre a organização e conteúdo do telecentro-piloto. A proposta foi levada
aos distritos, como hipótese, rediscutida em função dos resultados do trabalho
do campo, e afunilada. As formulações que se seguem são o produto consolidado
de todo este trabalho, embora a sua fundamentação só venha detalhada nos
capítulos seguintes.
a)
Objectivo principal
O
telecentro fornece meios melhorados de comunicação, informação e educação.
Quem tem acesso a estes meios, esteja onde estiver, tem a mesma possibilidade
de aceder e fazer circular informação e conhecimentos a todos os níveis
e em todos os sentidos, tanto horizontal como verticalmente. O conteúdo
veiculado pelos meios pode ser produzido em qualquer lingua, embora a linguagem
técnica predominante nos programas seja o inglês. O objectivo, neste caso,
é de colocar estes meios ao serviço do desenvolvimento local. Assim, o telecentro
deve ser visto como um centro de conhecimento e aprendizagem. Serve para
a busca, armazenagem e reprodução de informação, e também para a produção
e disseminação dela. Fins educativos/recreativos não devem ser descurados.
A utilização das TCIs deve reduzir os custos reais das comunicações, ao
mesmo tempo que eleva a qualidade das mesmas, contribuindo para suprir o
déficit informativo que existe fora dos grandes centros urbanos.
Entende-se que dentro do objectivo geral existem objectivos a curto, médio
e longo prazos. A curto prazo, a economia local será estimulada pelo acesso
às TCIs, para efeitos de comunicação eficaz dentro e fora do país, e pela
recolha de informação relevante para determinadas actividades económicas
e profissionais. A transmissão fácil de informação promoverá o desenvolvimento
e as actividades locais. A qualidade dos serviços prestados pelo estado
poderá melhorar, e algumas necessidades práticas e imediatas dos cidadãos
encontrarão soluções.
A
médio e longo prazo, a introdução de, por exemplo, alunos secundários na
aprendizagem e utilização destes instrumentos, produzirá efeitos no âmbito
do sucesso escolar e das perspectivas laborais destes jovens. Jovens que
não conseguem estudar no ensino formal terão a possibilidade de continuar
a sua educação por outros meios, reduzindo os perigos que advêm da sua marginalização.
A possibilidade de as associações locais poderem comunicar mais facilmente
na vertente horizontal, não só dentro do país, mas também com organizações
congéneres noutras partes do mundo, contribuirá para o fortalecimento da
sociedade civil. A administração local será apoiado no seu processo de descentralização,
resultando em benefícios para a zona.
A
longo prazo, o crescimento de uma nova geração que integre o uso das TCIs
na sua vida quotidiana terá efeitos difíceis de dimensionar, enquanto a
existência destes recursos a nível local contribuirá para reduzir os desequilíbrios
regionais e geográficos e para a estabilização da população.
b)
Destinatários
O
telecentro é aberto ao público, e far-se-á um esforço para envolver todos
os sectores e camadas no seu uso. Entretanto, como nem todos terão a mesma
facilidade na utilização imediata dos equipamentos, concebem-se os destinatários
em termos de beneficiários directos e indirectos. Assim, prevêm-se:
(i)
grupos-alvo directos: docentes e alunos; agentes económicos (por exemplo,
empresários e comerciantes); a administração local e os sectores de educação,
saúde e agricultura; profissionais (destes e doutros sectores); associações,
organizações e ONGs, por exemplo de mulheres ou agricultores (locais, nacionais
e estrangeiras). Outros beneficiários directos incluem a camada juvenil
em geral, e pessoas em trânsito (turistas, investidores, jornalistas, etc).
(ii)
grupos-alvo indirectos: os que se vão beneficiar do telecentro sem, no entanto,
serem, eles próprios, utentes. Aqui incluem-se os trabalhadores das empresas
ou entidades utentes; os membros das associações; as famílias dos alunos;
os doentes que receberão um tratamento melhor graças às informações da Internet,
etc.
No
entanto, a estratégia principal para atingir os grupos mais marginalizados
é por via das escolas e centros de formação locais. Ao capacitar jovens
para a utilização das TCIs através das escolas, espera-se atingir, com maior
facilidade, jovens de todas as camadas económicas e de ambos os sexos. Se
se conseguem estes alvos, estão-se a criar bases para melhorias futuras
nas suas vidas e das suas famílias, e está-se a garantir a democratização
de acesso à informação. Neste sentido o grupo de mulheres pobres enquadra-se
nos beneficiários indirectos.
c)
Serviços e funcionamento
Os
serviços do telecentro devem criar uma ponte entre as necessidades imediatas
sentidas e as inovações a introduzir. Deve-se também ter em conta que a
utilidade, por exemplo, do correio electrónico ("e-mail"), só pode ser visível
quando o utente tem com quem corresponder; e o número de correspondentes
em Moçambique ainda é limitado. Daí a importância, também, de um trabalho
proactivo na criação de conteúdos e facilitação de acesso a materiais relevantes.
O telecentro é aberto ao público, tal como uma loja qualquer, embora se
tenha que estudar o horário mais apropriado (muitas pessoas tratam dos seus
telefonemas e assuntos pessoais fora das horas de serviço, e quando o custo
das chamadas é mais baixo).
O
centro contém computadores (3) para uso público, ligados a uma impressora.
Este equipamento pode ser utilizado para o envio e recepção de mensagens
via "e-mail", para acesso à Internet, para o processamento de textos e dados
e para a produção de publicações e afins ("desktop publishing"), e a respectiva
impressão de documentos. O acesso à Internet abrange tanto a procura de
informações como o descarregamento e subsequente reprodução delas e, não
menos importante, a produção local de conteúdos e a sua disseminação mundial.
Os clientes pagam os serviços, ou por assinatura ou por tempo e forma de
utilização. Os computadores também servem para as aulas de formação na área
de informática, ou aulas utilizando os conteúdos disponibilizados (ensino
à distância, CD-Rom, Internet, etc).
Como
suporte directo para estes serviços, o centro também dispõe de uma pequena
biblioteca de manuais técnicos, livros sobre informática, CD-Roms e material
de referência, por exemplo listas telefónicas e de endereços "e-mail". À
luz da importância de educação e formação, prevê-se também um quadro branco,
um rádio com leitor de cassettes, um "datadisplay", um televisor e um vídeo.
Se houver interesse para tal, o centro pode vender jornais e revistas.
Cursos
e outras iniciativas, organizados a nível local, por exemplo, sobre saúde
comunitária ou vacinações, ou acções de educação cívica, podem aproveitar
os equipamentos e instalações do telecentro.
No
âmbito dos serviços de relevância imediata para a comunidade em geral e
para os grupos-alvo, prevê-se instalar uma cabine telefónica (telecartão),
um telefax, uma fotocopiadora e uma encadernadora manual. O telecentro também
deverá ter uma vitrina ou biombos para a fixação de informações e avisos.
O
telecentro é gerido por um gestor com formação técnica adequada para poder
operar o equipamento, apoiar os clientes, orientar cursos introdutórios
e realizar a primeira linha de manutenção do equipamento. Actividades de
maior envergadura são contratadas fora. O gestor é apoiado por um assistente
e, quando necessário, por um guarda. Todo o pessoal é recrutado localmente.
A gestão do centro dispõe de equipamento próprio, incluindo um computador
e impressora, um cofre pequeno, máquina de calcular e outro equipamento
de registo.
Ao
longo do tempo, prevê-se o treinamento de animadores locais, que possam
apoiar o funcionamento do telecentro. Será preciso fazer questão de mobilizar
algumas animadoras femininas.
Em
suma, o telecentro deve ser acessível e acolhedor, com a capacidade de conduzir
várias actividades individuais em simultâneo e de dar aulas a grupos até
6 pessoas. O conteúdo definitivo de cada telecentro é decidido em função
das prioridades locais, e em função do seu crescimento e capacidade. Por
exemplo, pode-se introduzir uma rede local com "server" próprio, uma linha
alugada, um scanner para apoiar a produção local, equipamento necessário
para projectos mais avançados de telemedicina, etc. O projecto de instalação
dos dois telecentros-piloto (veja a 2a parte do presente relatório) concretiza
as propostas para Namaacha e Manhiça.
d)
Sustentabilidade
O
telecentro é administrativa e financeiramente autónomo. A sua contabilidade
é de tipo empresarial. Embora se conte com um financiamento para as despesas
de investimento, e para os custos correntes durante um determinado período,
deve atingir auto-suficiência e viabilidade económica através da geração
de receitas.
Este
princípio é de particular importância se tomarmos em conta a perspectiva
de, futuramente, multiplicar telecentros pelo país. A implicação é que quaisquer
fundos de donativos terão que ser aplicados na instalação de novos centros,
e não para o sustento dos existentes. O corolário disto é a obrigação de
oferecer serviços que são suficientemente atraentes e úteis para justificar
o dispêndio de dinheiro no contexto do nível de vida actual, e, ao mesmo
tempo, garantir que os custos reais são cobertos. Por outro lado, o telecentro
deve evitar custos de investimento tão altos que à partida sejam difíceis
de replicar e/ou amortizar.
Por
isso, há um grande incentivo para pôr rapidamente em acção os serviços de
maior valor acrescentado, nomeadamente, os directamente ligados à informática.
A política tarifária para todos os serviços é um aspecto a ser estudado
e experimentado durante a fase piloto.
Outra
iniciativa terá que ser a de procurar novas fontes de financiamento e apoio.
Não cabe a este estudo ir até à concretização desta hipótese, cabendo, mais
propriamente, à gestão do próprio telecentro a nível local. No entanto,
já existem algumas ideias: por exemplo, patrocínios em meios materiais -
equipamento, consumíveis, etc - por parte das empresas fornecedoras; financiamentos
para contratos de formação e para a utilização do telecentro por escolas,
membros de associações locais, etc, no âmbito de acções de desenvolvimento
levadas a cabo por ONGs nacionais e estrangeiras e outras entidades; alocação
de verbas nos orçamentos de entidades estatais para estes fins, como seja
o caso da Administração local, DDE, DDS, DDAP, etc; patrocínio directo para
o telecentro como um bem comunitário; investimento governamental; o fornecimento
de serviços para outros projectos; etc.
O
estudo de viabilidade económica, que faz parte integrante do projecto de
instalação dos dois telecentros-piloto, propõe alguns cenários visando a
viabilização do telecentro.
e)
Propriedade
Durante
a fase piloto o telecentro é propriedade do CIUEM. Este, como responsável
para o acompanhamento e apoio do projecto-piloto, e para as componentes
de experimentação e investigação inerentes (que devem ser custeadas em separado),
tem uma intervenção directa nesta fase, e o gestor deve prestar contas a
ele. Entretanto, logo no início, deve-se dar prioridade à constituição e
definição das tarefas de um "Comité de Acompanhamento", a nível local, em
consulta com a comunidade. Este comité composto pelas partes interessadas,
representa os interesses da comunidade junto do CIUEM, e também acompanha
a evolução do projecto. Ao longo deste, deve-se prestar particular atenção
ao funcionamento do comité e introduzir as alterações que se mostrem necessárias.
Antes do fim da fase piloto, o comité, juntamente com o CIUEM, deverá decidir
sobre a forma de gestão futura do telecentro: comunitária, passar para o
sector privado, entregar à gestão de uma determinada entidade ou associação,
etc. Entendemos que todas as opções são possíveis, e seria um erro ditar
antecipadamente como deve ser: o objectivo é encontrar uma modalidade que
garanta a continuidade do trabalho em moldes que defendam os interesses
da comunidade e de todas as partes envolvidas.
Uma
vez comprovada a utilidade e viabilidade do telecentro, através dos projectos-piloto,
a questão de propriedade deixará de ser colocada nestes termos. Passar-se-á,
provavelmente, para uma modalidade em que as entidades ou indivíduos interessados
em montar e/ou gerir um telecentro num local novo se candidatem espontaneamente,
e assumam os riscos e responsabilidades. Se o empreendimento fôr realizado
com capital próprio, evidentemente a forma e conteúdo do telecentro serão
definidos pelo proprietário. Se fôr com fundos de outras fontes, os financiadores,
necessariamente, terão a sua palavra.