ESTUDO DE VIABILIDADE E PROJECTO
DE INSTALAÇÃO DE DOIS TELECENTROS-PILOTO NA PROVÍNCIA
DE MAPUTO - MANHIÇA E NAMAACHA
Maputo,
Abril 1998 Relatório final
INTRODUÇÃO
O
aparecimento de novas Tecnologias de Comunicação e Informação (TCIs) despoletou
um debate a nível internacional sobre as implicações que isso representa
nas relações Norte-Sul, centros-periferias, e no desenvolvimento em geral.
Um acesso desigual e desequilibrado às novas TCIs pode contribur para o
aumento do fosso entre desenvolvidos e sub-desenvolvidos, ricos e pobres,
e entre incluídos e excluídos. Isto é particularmente verdade no mundo da
economia, das ideias e das tecnologias. Por outro lado, o acesso alargado
às novas TCIs abre caminho para uma maior integração dos indivíduos e das
sociedades na aldeia global, um acesso mais igual e "democrático" à comunicação
e à informação (tanto no sentido horizontal como vertical) e uma maior oportunidade
de acesso aos benefícios do progresso técnico-científico.
Em
Maio de 1996, a Comissão Económica para África (ECA) adoptou uma resolução
aprovando os objectivos e estratégias propostos no âmbito da Iniciativa
para uma Sociedade de Informação Africana (AISI). Foi na sequência dessa
resolução que, em Fevereiro de 1997, num "workshop" denominado Para uma
Sociedade de Informação em Moçambique, organizado pelo CIUEM, o Governo
de Moçambique reafirmou o seu interesse pela introdução e utilização de
novas tecnologias de comunicação e informação no país. Ao mesmo tempo, o
"International Development Research Centre" (IDRC) do Canadá decidiu incluir
Moçambique no seu Programa Acácia, que tem por objectivo demonstrar que
o acesso às tecnologias de comunicação e informação pode contribuir para
a resolução local de problemas de desenvolvimento. Na verdade, este programa
visa pesquisar e identificar as tecnologias e metodologias mais apropriadas
às realidades locais e o acesso das zonas rurais às TCIs. Assim, um estudo
de viabilidade social, económica e técnica, para a instalação e funcionamento
de dois telecentros-piloto no país, constitui um dos primeiros projectos
do Programa Acácia em Moçambique. Trata-se de um projecto levado a cabo
numa parceria IDRC /CIUEM.
RESUMO
EXECUTIVO
Este
documento apresenta os resultados de um estudo realizado com o objectivo
de avaliar a viabilidade da instalação de dois telecentros-piloto em Moçambique,
bem como o projecto elaborado na base das conclusões do estudo. O trabalho
foi levado a cabo por uma equipe coordenada pelo Centro de Informática da
Universidade Eduardo Mondlane (CIUEM), com o apoio do "International Development
Research Centre" de Canadá (IDRC) e do "Mozambique Acacia Advisory Committee
Secretariat" (MAACS).
O estudo de viabilidade trata, não só da implantação técnica de infraestruturas,
mas também, com um destaque significativo, dos aspectos sócio-económicos.
Um objectivo específico é contribuir para o desenvolvimento de uma metodologia
apropriada para a selecção de locais e instalação de telecentros. Por esta
razão, optou-se pela criação de uma equipe multidisciplinar, envolvendo
especialistas do CIUEM, da TDM (Telecomunicações de Moçambique) e das ciências
sociais. O relatório está dividido em duas partes, a primeira com cinco
capítulos, tratando do estudo e os seus resultados, e a segund parte constituída
pelo projecto concreto, podendo ser lido em separado. A Introdução contextualiza
o estudo no quadro das políticas africanas e nacionais rumo a uma Sociedade
de Informação, e expõe os seus objectivos. Numa breve abordagem da situação
em Moçambique, identificam-se áreas onde a utilização de tecnologias de
comunicação e informação (TCIs) pode trazer imensos benefícios para sociedade:
apoio ao desenvolvimento equilibrado, processo de democratização e descentralização
e o livre acesso à informação.
O
Capitulo II discute algumas questões metodológicas. Argumenta-se que a filosofia
central para os telecentros em Moçambique é a de perspectivá-los em termos
da sua contribuição para o desenvolvimento local. O telecentro constitui
uma intervenção estratégica, mas devido a sua natureza vem de fora, não
surge de forma linear a partir das necessidades sentidas pela comunidade.
No entanto, um factor crítico para o sucesso e sustentabilidade do projecto
será a medida em que ele venha a ser enquadrado e assumido a nível local.
Isto tem implicacões para as metodologias a adoptar, que devem ser participativas
desde o primeiro momento e devem procurar criar bases locais de apoio para
o projecto. A identificação dos beneficiários directos e indirectos e das
suas necessidades é, assim, crucial.
O
trabalho foi dividido em 11 fases, desde a formulação da hipótese preliminar
até a elaboração da versão final do relatório. Utilizaram-se, como métodos
de recolha de informação, a pesquisa documental, entrevistas com informadores
e grupos de foco, e inquéritos: primeiro para seleccionar os locais, e depois
para aprofundar os conhecimentos sobre os dois locais escolhidos.
No
Capítulo III uma discussão sobre diferentes conceitos de telecentros e sobre
as necessidades e constrangimentos específicos de Moçambique leva à conclusão
de que, no quadro deste projecto, o telecentro deve ser visto como um centro
de conhecimentos e aprendizagem, para além de ser um centro de comunicação,
e deve directa ou indirectamente servir toda a comunidade. O objectivo do
projecto é a criação de um modelo que cumpra todas estas funções e que comprove
a relevância das TCIs para o desenvolvimento, sendo, ao mesmo tempo, economicamente
sustentável.
As linhas gerais do funcionamento do telecentro foram finalizadas, incorporando
as conclusões do trabalho de campo. Propõe-se um centro de acesso público,
situado fora das grandes cidades, em princípio a nível de vila. Entre os
grupos-alvo prioritários constam docentes e alunos, agentes económicos,
a administração local, profissionais e técnicos locais, e organizações da
sociedade civil. Os grupos-alvo indirectos incluem trabalhadores das empresas
ou entidades utentes; membros das associações; os beneficiários de serviços
melhorados; etc.
A
estratégia para atingir os grupos mais marginalizados passa por uma ligação
directa com as escolas e outros centros, assim garantindo equidade de acesso
a jovens de todas as camadas sociais e de ambos os sexos. O projecto piloto
será gerido pelo CIUEM. Entretando, olhando para a questão de propriedade,
será criado um Comité de Acompanhamento local, e ao longo do projecto piloto
estudar-se-á o destino do telecentro e os moldes da sua passagem do CIUEM
às mãos de uma entidade local, quer pública quer privada.
O
Capítulo IV descreve o processo de selecção dos locais para os pilotos,
que deviam à partida estar perto de Maputo para facilitar o acompanhmento.
A pesquisa documental permitiu reduzir a lista de potenciais locais para
quatro, tendo sido feito visitas a todos. Os resultados apresentados neste
capítulo foram analisados na base de oito indicadores gerais, e de cinco
indicadores especificamente ligados às necessidades do projecto piloto.
No fim, constatou-se que Manhiça e Namaacha, potencialmente, reunem a maior
parte das condições exigidas pelos dois grupos de indicadores, incluindo
a condição imprescindível de terem sistemas de telecomunicações adequados,
imediatamente, graças aos novos investimentos em curso pela parte da TDM.
Também são vilas com boas perspectivas para o desenvolvimento sócio-económico,
a primeira como centro agro-industrial e futura autarquia, e a segunda como
centro turístico e de serviços. Ambas aparentaram ter um bom leque de utentes
potenciais. Moamba e Boane, por outro lado, não reunem actualmente as condições
técnicas, para além dos demais requisitos de oferecerem perspectivas de
desenvolvimento sócio-económico a curto e médio prazo.
Após
a tomada desta decisão, tornou-se necessário desenvolver o trabalho nos
locais escolhidos, com o objectivo principal de aprofundar os conhecimentos
sobre o tamanho e composição do leque de utentes potenciais e as suas necessidades,
e de recolher dados para o estudo de viabilidade económica. Ao mesmo tempo,
iniciou-se a preparação do projecto de instalação dos telecentros entanto
que tal, procurando instalações e definindo as soluções técnicas a adoptar,
desenhando o quadro de pessoal, etc.
Decidiu-se realizar um inquérito abrangendo uma amostra da população nas
duas vilas (Capítulo V). Para os grupos-alvo utilizou-se o método de selecção
aleatória estratificada, e para os restantes grupos, a selecção por conveniência.
Um questionário foi desenhado, e pilotado em dois locais em Maputo. Nas
duas vilas equipes de inquiridores foram recrutados e formados. Um total
de 203 pessoas foram entrevistadas em Manhiça e Namaacha, uma amostra calculada
assumindo um risco de erro de +/- 5%.
O
inquérito produziu informações sobre um total de 801 pessoas, considerando
os agregados familiares dos entrevistados. Os resultados das perguntas sobre
rendimentos e despesas mostram que a educação é a terceira prioridade nas
despesas dos agregados. Embora só as famílias com rendimentos superiores
a 1.200 contos mensais em Namaacha e 3.000 contos mensais em Manhiça têm
rendimentos superiores às despesas, existe vontade de pagar os serviços
propostos pelo telecentro. A interesse de procura e prioridade maior é nas
áreas de aprendizagem de computadores e a utilização da tecnologia para
fins educativos.
Do
ponto de vista dos objectivos estratégicos do telecentro é interessante
notar que um grande número dos estudantes nos distritos em análise são filhos
de camponeses. Outro facto interessante é a grande consistência nas respostas
dadas nas diferentes componentes do inquérito, e entre Manhiça e Namaacha.
A segunda parte do relatório é constituída pelo projecto de instalação dos
telecentros-piloto, com a duração de 4 anos, e apresenta toda a informação
prática e técnica necessária e uma descrição detalhada dos serviços a serem
oferecidos. Inclui um plano de acção, um cronograma e um orçamento. O estudo
económico mostra que, uma vez tomada em consideração a necessidade de amortizar
os investimentos e de planificar reposições de equipamento dentro de prazos
curtos, não se prevê sustentabilidade só a partir das receitas do público.
Entretanto, contando com a angariação de patrocínios e donativos nas linhas
propostas no Capítulo III para substituir os financiamentos externos da
fase de arranque, poder-se-á atingir a auto-suficiência em cinco anos.
O projecto também planifica uma componente de investigação, acompanhamento
e avaliação. O relatório recomenda igualmente o avanço com um terceiro telecentro-piloto,
desta vez longe de Maputo, ainda durante a vigência do presente projecto.
Objectivos
O
objectivo geral do projecto, segundo os termos de referência, aponta para
dois aspectos centrais:
- avaliar
a viabilidade de instalar dois telecentros-piloto em Moçambique;
- contribuir
para o desenvolvimento das metodologias mais apropriadas para a instalação
dos mesmos.
Em
termos mais específicos, o projecto visa:
a)
analisar critérios de viabilidade social, económica, técnica, infraestrutural
e institucional para a instalação de telecentros no contexto africano e
moçambicano;
b)
desenvolver metodologias sobre a selecção de locais, planificação e instalação
de telecentros que possam, de forma geral, ser aplicáveis dentro e fora
de Moçambique;
c)
identificar dois locais apropriados para a instalação de telecentros-piloto
em Moçambique, não demasiado longe da capital do país, Maputo, e de acordo
com os critérios e metodologias indicados em a) e b);
d)
preparar um projecto detalhado de instalação dos dois telecentros.
Equipe
de trabalho
A
equipe de trabalho era multidisciplinar e multisectorial, sendo composta
por:
Polly
Gaster (CIUEM) - chefe da equipe
Constantino
Sotomane (CIUEM) - engenheiro
Felisberto
Macitele (TDM) - engenheiro
Clara
de Sousa (UEM) - economista
Miguel
de Brito
participou na primeira fase de identificação dos locais. A equipe recebeu
um inestimável apoio directo, em termos metodológicos e de ideias, de Margarita
Mejia, do CEA/UEM, e do Engo Gomes Zita da TDM.